Profundidade Líquida

Diante do desafio de levar a vida em um mundo liquido, imerso em uma rotina onde a superficialidade das coisas se aprofunda, visitar a si mesmo se torna uma prática cada vez menos frequente e difícil. Explico.

Quantas vezes você teve ideias que pareciam fantásticas ou pensou em questões que nunca haviam lhe ocorrido? Por quantas vezes você observou algum aspecto muito peculiar da vida, não compartilhou com ninguém, e não se lembra ao certo o que era? Quantas vezes você despendeu vários e vários minutos olhando uma obra de arte em um Museu, ou ficou apenas em casa sentado lembrando de detalhes do último espetáculo que assistiu?

É possível que até mesmo para essas perguntas, as respostas estejam em uma profundidade difícil de alcançar.

Acontece que a maneira como levamos a vida na contemporaneidade não favorece um tipo de pensamento que demande mais tempo, ou, até mesmo mais profundidade. Talvez até mesmo associações mais complexas sejam combatidas ao mínimo sinal de sua manifestação. A velocidade das redes, a exigência do ideal de produtividade, excelência e profissionalismo, nos impede de prolongar pausas e consultar a nós mesmos.

O que estamos fazendo, afinal?

Passamos a vida em busca de coisas que não temos, e descobrimos que, ao conquistá-las, a mesma sensação de insuficiência nos obriga a buscar outras coisas. Nós consumimos tudo. E tudo que consumimos, consumimos por alimentar essa lógica que prevalece em nosso comportamento – industrial e descartável.

Para Schopenhauer vivemos entre a dor e o tédio. Enquanto estamos buscando algo que não temos, sofremos. Quando conquistamos o que tanto buscávamos, o que encontramos, na realidade, é o tédio, (afinal de contas, não estamos mais buscando por nada). Neste pêndulo de Schopenhauer, a felicidade é o intervalo entre ter chegado à tão sonhada conquista e a chegada do tédio novamente.

O problema maior é que essa estrutura é espelhada em nossas relações. Não satisfeitos em vagar entre a dor e o tédio em busca do que não temos, nossos maiores amores e amizades mais verdadeiras, foram arrastadas para esse processo. Inclusive nós mesmos.

Outro ponto alto desta questão é percebermos que, por conta do avanço tecnológico, tudo o que desejamos pode chegar muito mais rápido às nossas mãos. Com poucos cliques, (e os aplicativos certos), nosso alimento, transporte e compras (de diversas naturezas), chegam em instantes. Até mesmo aquele encontro casual, “amoroso”, pode ser rapidamente providenciado através de um cardápio afetivo.

Nesse sentido, ter algo a desejar superficialmente, faz com que a conquista seja fácil, portanto, o espaço de tempo entre a felicidade e o tédio se torna tão estreito, que o sofrimento e o tédio se confundem em uma constante. Porque o desejo, na contemporaneidade, é simultaneamente sofrimento e tédio.

Na História da Arte, essa angústia foi tratada na dimensão solitária do ser ao longo das distintas temporalidades históricas. Mas, de certa forma, foi a partir do impacto da modernidade que esse aspecto se tornou mais evidente.

Edward Hopper, Office at Night, 1940

Nas obras de Edward Hopper, as pessoas sempre aparecem solitárias, ainda que estejam na companhia de outras pessoas. Seus quadros sempre passam a silenciosa sensação de que o vazio existencial é uma constante na vida moderna.

Edward Hopper, Nighthawks, 1940.

Na arte Porvera, Michelangelo Pistoletto confronta a transitoriedade da massificação industrial com a perenidade da arte em seu conceito elevado. Desse modo, a busca pelo questionamento é claramente um caminho em direção ao aprofundamento do entendimento da condição humana.

Michelangelo Pistoletto, Venus of the Rags, 1967.

Outro artista que coloca em evidência a precariedade da solidão humana é Ron Mueck, com suas esculturas hiperrealistas.

Ron Mueck, Untitled, 2000.

Impactantes por conta de sua representação realista (por vezes entendida como mais real do que a realidade), a solidão humana é percebida nos olhares, na fragilidade da nudez e na fria e silenciosa presença dos corpos no espaço.

Ron Mueck em seu atelier.

Em meio de todas essas abordagens artísticas, em comparativo com a maneira como nos relacionamos atualmente, podemos perceber que a busca, no ato criador se dá pela profundidade. Explorando o entendimento de que a vida humana na sua precariedade é solitária em superfície, o aprofundamento no entendimento da condição humana, se torna um caminho para a dilatação do intervalo entre o sofrimento e o tédio. Isto porque, ao se debruçar sobre a sua própria humanidade, ao consultar-se em profundidade em um processo de criação, artístico ou não, é possível se afastar da superfície em direção ao alto mar da existência, onde os desejos são menos voláteis e as conquistas mais significativas e duradouras.


Frederico Lopes é Artista e Escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.

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