A Imaginação das mãos

Parece que é em cada fio muscular que chega à ponta dos dedos que a
gente sente: a mão, esse lugar que fica mais distante do cérebro ou do
coração, que revela tanto quanto esconde: protege e cria: atinge e afaga. Cada dedo um apontamento, uma contagem, um tudo: se não a mão, por onde mais pegamos o mundo?
Não há como escapar: é quando uma mão toca a outra que o arrepio se
alastra. Não há como esculpir sentimento algum. Se olharmos atentamente,
perceberemos as laringes que habitam as falanges, fazendo os gestos dizerem daí: vide como tocar, ao mesmo tempo que significa pegar algo físico e corpóreo, significa abrir-se em suas entranhas e se instalar no coração: com se quando eu te tocasse, eu te tocasse também.
Pensar a mão nas diferentes representações artísticas é um sensível
exercício de análise e reflexão. As mãos daquela figura humana que segura o pincel, que passa a linha pela agulha, que bate a argila contra a mesa, que
segura o leque para o próximo passo; tudo envolve movimento, estudo e talvez a espera por certa inspiração que embeleze aquele determinado fazer artístico.
Todas essas esperas e utilizações dessa extremidade do nosso membro
superior também se encontra presente e ganha voz dentro do silêncio corporal das obras de arte.
Em Saudade, de Almeida Júnior, a mão da figura feminina que lê e se
comove demonstra o aperto, a dor de uma memória afetiva, de algo que foi ou algo que acabou de ser. Os dedos vão se fechando e sustentando, junto ao pano que tapa a boca, a surpresa nada positiva de uma notícia que é
respondida por lágrimas.
O que nos punge, justamente, é que essa mão trabalha segurando a
boca, como uma espécie de consolo, tenta segurar palavras que podem vir: um desespero ao não dizer: um quase punho em riste, que guarda algo que nunca saberemos: o que ali está escrito? Que notícia paira no ar, rodeia o ambiente, embarga a voz?

Saudade, 1899, óleo sobre tela, 197 cm x 101 cm. Almeda Júnior, Pinacoteca do Estado de
São Paulo .

Na pintura de Delacroix, A Liberdade guiando o povo, a mão tensa que
ergue a bandeira e toma força junto ao silencioso grito de liberdade, igualdade e fraternidade, também nos traz uma dor e memória. Junto a uma coragem e levante de uma força que cria tensão desde os braços até os dedos que se curvam e se prendem como um só: o só do coletivo.

Liberdade Guiando o Povo, 1830, óleo sobre tela, 260 x 325 cm, Eugène Delacroix , Museu do
Louvre, Paris.

Diferentes, porém, parecidas. Mãos que não se encontraram e que não
se cruzaram, mas que dialogam entre si pelo movimento, sutileza e resistência de seus gestos, ambas com dor e na tentativa de sustentação de algo que fere e faz mover.
Ernst Gombrich nos fala sobre uma história da arte contínua, onde as
obras de determinado período estão sempre refletindo o passado e apontando
para o futuro. Se criarmos uma relação disto com as mãos, e tudo o que se
desdobra a partir de seu uso, temos obras vivas e artistas que ainda tocam
sem tocar, ou porque criaram a partir de seus dedos ou por deixarem seus
trabalhos nos tocarem a partir de movimentos singelos de saudade, de
comando ou de silêncios: de fazeres manuais invisíveis.
Nisso, a gestação dos gestos, sejam aqueles retratados ou aqueles que fazem o retrato, se impõe: como se os dedos é que imaginassem junto com o construir, com o moldar: as linhas curvas da pintura, as linhas expressivas das mãos do artista. Tudo vai e vem disso: as mãos que retratam mãos, suas semelhantes, seus espelhos: O vórtice que leva tudo pra lá: em vez de oz, no final do furacão da arte, você se encontra nas mãos.
Enfim, é nãos mãos que tudo nasce, que tudo vive, que tudo morre e
que tudo fica: é através dela que escrevemos esse texto, que percebemos as
formas do mundo, que nos expressamos mais do que na voz e na fala, essa
forma toda atravessada pelo pensar. Está tudo nas mãos, sempre.


Rayane Souza é historiadora da arte e arte educadora, não necessariamente nessa ordem. aceita o que vem da vida assim como a vida aceita o que vem dela.

Marcus Cardoso, historiador de formação, mestrando, músico… Faz tanta coisa que acaba não fazendo nada. E, se somos o que fazemos, então é isso: um grande nada que acredita piamente que a salvação do mundo está escondida em um haicai.

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