Os Poucos Traços de Agathe Sorlet

É preciso se despir das hachuras e do olho que busca um ponto de fuga renascentista, quando pensamos em pormenores: com poucos traços, com mínimos movimentos com a mão, é possível criar mais sensibilidade do que muita coisa. Cada pinta miúda que nasce com um mínimo resvalar da tinta, cada pingo absorvido pelo chão irregular do papel. A linha clara da francesa Agathe Sorlet nos propõe isso.

A França tem uma tradição gigante nesse traço de linha clara: Vide a influência enorme de Hergé (TinTim) e as aventuras
de Spirou, que estão saindo no Brasil belissimamente pela SESI-SP Editora.
Agathe transforma a linha em detalhe e, com poucos movimentos, toca:
desmonta: deságua.

A simplicidade do desenho faz com que, através da imaginação, qualquer pessoa possa se reconhecer. E a cada quadro, a cada lance de braços, de pernas, de corpos, nos espelhássemos e nos víssemos ali: quase uma mimesis invertida.

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No caso da imagem acima, é estupendo como em apenas três momentos nos vemos imersos na intimidade do casal, sentindo o ar daquele instante, a leveza de uma brincadeira de inverno. Interessante observar como a expressão dos olhos nos contam muito mais do que a boca: os olhos, esses espelhos, é que nos guiam e se expressam. Como na imagem abaixo, em que a noite vai passando através das posições, e é impossível não lembrar da sensação de pele contra pele que os desenhos trazem: das pernas entrelaçadas e cerzidas, do peito-colo-porto, do cheiro do sono ou do frescor da roupa do outro na sua frente. O outro, esse intransponível, parece até mais simples nesse traço.

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É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma, dizia Calvino. E
a escolha das cores traz essa leveza precisa que o pássaro, mesmo mais
pesado que o ar, conquista: a única cor chapada, em contraste, cria um charme característico, uma forma de levitar cada vez mais o cotidiano, o instante chã. Aquilo que menos aparece mas o que mais importa. Na ilustração abaixo, em que as mulheres se unem pelo negativo do biquíni, que se mescla com o fundo, uma leitura possível fosse a ligação das mulheres pela opressão social de não poderem ficar nuas na praia. Isso contrasta com a serenidade em que elas descansam, amalgamadas. As linhas se confundem e o que resta é só afeto, calmas explosões de afeição entre uma e outra. Um silêncio compartilhado e nada incômodo.

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A simplicidade com que Agathe trata o sexo é certeira: punge e ataca o
tabu com que isso corre na sociedade: uma transa que suspira transe, que é
feita de calor e pele, de suor e beijos, de apertos e imensidões. Em seus
desenhos, um abraço é tão sensual quando qualquer outra coisa, pois dito que é no poro que a química acontece: são nesses corpos simples, corriqueiros, cotidianos, seculares, que o desejo brota e desliza. São nessas situações em que fazemos moradia, em que construímos laços, na qual derretemos por vontade. Os pelos se eriçando com a boca no pescoço e cada átomo de linguagem corre fazer um cafuné.

Agathe é simplesmente avassaladora apesar de simples: pois é no detalhe que tudo se guarda: é no pouco que o muito se cria: é naquilo que não vemos em que a vida se dá. Não há mais o que dizer aqui. As palavras serão sempre essa falha, essa vontade incabível de abarcar o todo, de explicar o tudo.

Acessem seu instagram (@agathesorlet) e mergulhem fundo em como poucos traços nos atravessam sem parar.


Marcus Cardoso, historiador de formação, mestrando, músico… Faz tanta coisa que acaba não fazendo nada. E, se somos o que fazemos, então é isso: um grande nada que acredita piamente que a salvação do mundo está escondida em um haicai.



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