A Jornada é o Destino.

Uma alegoria interessante para entender o processo de criação de um artista, seria fazer uma comparação, por exemplo, com a relação entre um alpinista e uma montanha. Eu sei, parece algo distante, mas não desista do texto ainda. 

Você já deve ter se perguntado alguma vez: o que leva um indivíduo a escalar uma montanha? Qual o sentido de gastar tanta energia e despender tanto tempo para chegar no ponto mais alto e, em seguida, descer?

Ao nos debruçarmos sobre o ato de escalar uma montanha, a motivação do alpinista pode nos parecer tola e controversa devido à periculosidade da ação à qual ele se propõe a executar, mas, sobretudo, na aparente falta de sentido de subir uma montanha para descer.

Alpinistas se aproximam do cume do Everest, em 17 de maio de 2018 – AFP/Arquivos

Sobre essa ação em especial, podemos observar que o ato do alpinista nos intriga de um modo muito peculiar porque buscamos um objetivo concreto, um resultado mensurável para dar significado ao esforço do alpinista. No entanto, veja bem: se o objetivo do alpinista for chegar ao cume, poderíamos inferir que se um helicóptero facilmente o levasse ao topo da montanha, ele iria satisfazer sua inquietação. Certo? Ou se a beleza da paisagem, por exemplo, for sua inclinação objetiva, ao chegar aos pés da montanha e contemplar sua suntuosa e imponente beleza, o alpinista poderia virar as costas e retornar satisfeito? Correto? Nesses dois casos, será que sua inquietação seria saciada? 

A resposta é não. Não porque a jornada é o destino. E o verdadeiro objetivo.

A estrutura completa da jornada do alpinista só faz sentido entendendo que o processo é a parte mais importante. O percurso, forjará o alpinista em compromisso com seu propósito, fazendo com que ele possa se relacionar com a montanha e com sua mais profunda subjetividade.

Ao encarar uma montanha, o alpinista encara a si mesmo em sua versão mais frágil, sensível e humana, criando e resolvendo conflitos mentais que apresentarão à ele outras versões de si mesmo, outros processos e produtos de sua percepção.

O cume só faz sentido para o alpinista que enfrentou sua própria jornada de autoconhecimento e superação, o que eleva seu propósito ao chegar no ápice de sua caminhada, e proporcionar à si mesmo, a contemplação do precioso resultado.

Essa jornada apresenta à este indivíduo dicotomias que fazem com que ele perceba que é frágil e forte, sensível e indiferente, covarde e corajoso ao mesmo tempo. Isso porque a maioria de seus sentimentos e sensações derivam precisamente deste processo. Assim sendo, sua coragem, surge ao enfrentar seus medos, e a sensibilidade é desenvolvida ao se perceber pequeno e insensível. Deste modo, a grandeza de sua jornada, está na percepção e entendimento de sua pequenez e insignificância diante da monumental e imponente presença da montanha.

Por outro lado, assim como o alpinista, o artista precisa enfrentar os desafios da criação para chegar à melhor versão de sua proposição artística. Ao se propor o ato criador, inúmeros processos mentais são inaugurados, e existem apenas no momento da criação. O que faz com que o artista se depare com sensações e percepções diferentes, e, deste modo, é convidado à solucionar problemas inerentes ao processo da Arte. 

Ao adentrar no território das artes através da sua relação com a obra em processo de criação, não há referencial exato para os problemas que estão em ebulição no pensamento do artista. O ineditismo da experiência de criar cada proposta artística, se assemelha à cada jornada de cada alpinista, pois toda montanha é única e proporcionará uma experiência diferente, portanto, outras relações e percepções serão estimuladas. Escalar a mesma montanha em momentos diferentes apresentará problemas e percepções diferentes. Assim como no ato criador do artista.

Portanto, diante de um obra de arte em um museu ou galeria, por exemplo, estamos encarando o resultado de um processo muito mais profundo e intrigante. Podemos pressupor os motivos de suas escolhas, indagarmo-nos acerca da intencionalidade da proposição, ou até mesmo questões sobre o significado do produto artístico que se apresenta à nós. Mas precisamos ter sempre em mente que o processo é o trabalho. E o trabalho é em si, o que há de mais valioso neste processo.


Frederico Lopes é Artista e gostaria de ser Escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.


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Devemos aos nossos filhos – os cidadãos mais vulneráveis de qualquer sociedade – uma vida livre de violência e medo. Nelson Madela


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