A Construção Histórica da Paisagem Cultural do Cariri

Na região do Cariri localiza-se a Chapada do Araripe, um planalto encravado nas fronteiras dos estados do Ceará, Piauí, Pernambuco e Paraíba. O território é de grande interesse ecológico por convergir os ecossistemas da mata atlântica, caatinga e cerrado. Abriga a primeira Floresta Nacional constituída pelo governo brasileiro (1946), com predominância de mata atlântica e água abundante, uma área de proteção ambiental (1997) e um Geopark (2006), este o mais importante depósito d fósseis do Brasil e um dos 10 maiores do mundo.

Caminhos da Fé

JUAZEIRO DO NORTE, CE, BRASIL, 02-11-2013: Ensaio Romaria de finados, caminho dos Romeiros do Padim Ciço. (Foto: Samuel Macedo)

Registra-se que a Região Cariri recebeu os primeiros visitantes não índios na última década do século XVII, quando a bandeira oriunda da província da Bahia chefiada pelos irmãos Lobato Lira, um padre e um frade capuchinho descobriram a cachoeira de Missão Velha, local de grande beleza natural onde começaram o processo de aldeamento e redução das etnias indígenas. Auspiciados pelo capuchinho Frei Carlos Maria de Ferrara, os colonos teriam prosseguido expedições subindo o curso do rio salgado até atingirem o riacho Itaitera (na linguagem dos índios cariris, “água que corre entre as pedras”), nas margens do qual fundaram a Missão do Miranda, que tornar-se-ia o maior aldeamento da região e que originou o município de Crato.

A fertilidade dos solos, a presença dos recursos hídricos e a mão escrava de índios e negros no cultivo da cana-de-açúcar, mandioca e cereais transformaram a Missão do Miranda em um povoado próspero.

Diversos levantes populares vivem na memória Cariri, o de maior destaque a revolta de 1817 comandada por Bárbara de Alencar, rica fazendeira e avó do escritor José de Alencar. Bárbara e seus aliados sublevaram a população e proclamaram uma República que teve a duração de oito dias, desmantelada pelo exército do governo monárquico. O Cariri vivenciou conflitos religiosos e políticos de significativa relevância para constituição do nordeste brasileiro.

Ponto de encontro de ecossistemas, povos, culturas e de vitalidade nas práticas religiosas, os cariris vivem a memória, valores e fundamentos éticos de missionários como Padre Cícero, Padre Ibiapina, Antônio Conselheiro e Beato José Lourenço, folguedos, artesanatos e festejos populares, bem como estão os remanescentes arquitetônicos da obra civilizatória erguida pelos missionários e seus beatos. Nos municípios que constituem esse cariri ainda resistem patrimônios que são fundamentais para reconstrução da memória do povo do nordeste, como as casas de caridade fundadas por Padre Ibiapina na primeira metade do século XIX em quase todo território nordestino, as fontes curativas do Caldas, o roteiro da fé do Padre Cícero, as ruínas do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, Serra da Capivara no Piauí, Vale do Catimbau em Pernambuco, entre outros conjuntos valiosos para a memória nacional. Embora seja grande o potencial para a prática e difusão de uma cultura ecocidadã de conhecimento e valorização da diversidade cultural, os cariris atravessam crise ambiental e de identidade cultural relacionada à destruição de recursos naturais, dissolução de seu patrimônio material e imaterial.

Fotografias por: Samuel Macedo

Conhecido também como “caldeirão efervescente da cultura”, o cariri (Paraibano, pernambucano, cearense e piauiense) se destaca na paisagem simbólica brasileira enquanto espaço composto por uma imensa pluralidade de práticas socioculturais, religiosas, saberes, fazeres, celebrações e formas de expressões oriundas dos estados nordestinos, que convergem para potencializar a diversidade das constantes identidades que surgem da miscigenação de povos vindos dos quatro cantos do país.

Não é possível desconsiderar a relação entre o Cariri e a cultura, sobretudo a chamada cultura popular, expressa em manifestações como lapinhas, reisados, maneiro pau, bacamarteiros, caretas, bandas cabaçais, diversas espécies de côco, além de contar com um rico artesanato e uma deliciosa gastronomia. O Cariri é considerado, também, como o berço da xilogravura e do cordel. A cultura popular torna-se um elemento central para a unificação dos cariris, como elemento síntese, a partir da constituição da ideia de que a região é um “celeiro de manifestações culturais”.

A povoação do Cariri pelo homem branco, se deu no chamado ciclo do couro, através de vaqueiros oriundos da Bahia que iam adentrando os sertões à procura de mais terras para criar o gado, plantar pasto, neste encontro se deu os primeiros registros de baianos em terras cariris, um legado interessante que reuniu índios, brancos e negros, forjando uma história por meio de intercâmbios e vivências em pleno sertão nordestino, onde tínhamos toda espécie de registro artístico, desde as pinturas rupestres, aos mitos e lendas. Nesse contexto, contemporaneamente, surge um novo encontro entre os cariris pernambucano, cearense, piauiense e paraibano, trazendo novas possibilidades para construção de redes colaborativas.

A Civilização dos Beatos

A expressão cultural “Civilização dos Beatos” refere-se ao potencial de desenvolvimento existente na região do Cariri, a partir da identificação das memórias dos beatos relacionadas às culturas, às diferentes visões sobre os acontecimentos na existência dos beatos e sua importância para a história dos cariris paraibano, cearense, piauiense e pernambucano. Se faz urgente um diagnóstico profundo dos espaços construídos a partir do pensamento dos beatos, contendo itens específicos para o levantamento das suas trajetórias com situação antes e depois das suas existências, bem como sua relação com as comunidades, reconhecendo as políticas de valorização cultural na concepção dos beatos como elemento fundamental para o desenvolvimento regional.

Fotografia por: Samuel Macedo

O conceito de Civilização dos Beatos foi elaborado para dar conta da grandiosidade dessas figuras emblemáticas que atuaram na região que compõe o Cariri paraibano, cearense, piauiense e pernambucano, realizando uma obra ancorada na fé e no trabalho, desmistificando a atuação de beato como o pedinte, miserável e desprovido de pedagogia como coloca Xavier de Oliveira em seu livro Beatos e Cangaceiros. Articular um pensamento que coloca os beatos e todo seu legado como grandes responsáveis pela instituição do nordeste brasileiro num território que conjuga desenvolvimento, organização social, patrimônio material e imaterial e paisagem simbólica, é reconhecer um ambiente gerado pelo sistema de trocas, que favorece um estudo aprofundado e uma grande reflexão sobre as práticas para o avanço de territórios em formação. Necessário se faz dar voz as ações desses beatos e suas formas de organização do espaço, na busca de estabelecer um roteiro de memória para fruição das comunidades e estruturação da região. Nessa busca, é preciso partir de questões como planejamento, gestão, estruturação, fomento e acesso, regulamentar as políticas públicas de cultura para influir diretamente na questão do desenvolvimento regional a fim de contribuir para a região, estruturando seu desenvolvimento com base nas narrativas, depoimentos, fotografias, documentos, entrevistas, livros, jornais, dentre outros meios de pesquisa e comunicação.

Fotografia por: Samuel Macedo

O Cariri Contemporâneo:

O Cariri sempre foi uma passagem singular de povos ancestrais que deixaram como legado uma cultura pujante e única, ambiente onde a cultura e a biodiversidade formam um quadro de inestimável valor para a humanidade. Em seu território solidificou-se uma cultura original, em que a presença indígena perpetuou-se por meio de pessoas e grupos que cantam, dançam e mantém, através da oralidade, a sabedoria do homem kariri.

Fotografias por: Samuel Macedo

Imersos nos bolsões urbanos uma profusão de artistas inspiram-se nas fontes ancestrais desse imenso Cariri. Um Cariri contemporâneo, matreiro, que converge para a virtualidade, que tem pressa e tem dívida com o futuro.

Pensar e agir coletivamente, em escala crescente, do comunitário ao municipal, do regional ao nacional, entende-se que se faz necessário a estruturação de um processo sólido e sustentável de desenvolvimento, ao levar em conta a profunda organicidade entre meio-ambiente, pessoas e cultura.

Não aceitar a lógica devastadora do mercado, a pasteurização de atividades por pressões advindas da massificação da cultura e, sobretudo, não aceitar a perda da identidade e o abandono sistemático das tradições, das expressões artísticas e grupos culturais.

A cultura é um direito fundamental, é preciso entendê-la em sua dimensão maior – o povo fazendo seu caminho pela vida, pela sua história e pela sua memória. É preciso fazer valer a Constituição Brasileira, que estabelece que o poder público deve garantir a todos os cidadãos brasileiros o pleno exercício dos direitos culturais.

A cultura e as artes sempre foram meios fundamentais para o desenvolvimento das sociedades e passo decisivo para a integração dos povos de todos os cantos. Que essa integração seja cada vez mais significativa, pois é por meio desse intercâmbio que pode-se confrontar, debater ideias e descobrir caminhos para que novas gerações possam desfrutar de conhecimentos e descobrir novas possibilidades para um mundo mais digno e democrático. O Cariri é esteio dessa discussão, promovendo, sobretudo, um espaço cultural que estabelece relações em diversos campos para desenvolver políticas de produção, gestão e realização artística.


Dane de Jade é curadora, atriz-pesquisadora, produtora, arte-educadora, radialista e gestora cultural. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Regional do Cariri – URCA, cursou também arte-educação na URCA, pós-graduação em Gestão Estratégica nas organizações de Terceiro Setor na Universidade Estadual do Ceará – UECE, Gestão Cultural pela Universidade Federal do Cariri – UFCA, Arte Educação pela Universidade Regional do Cariri – URCA e Doutoranda em Turismo, Lazer e Cultura pela Universidade de Coimbra em Portugal. Dirigiu o Departamento de Promoção, difusão e Ação Sócio-Cultural da Fundação Cultural J. de Figueiredo Filho em Crato-CE, fomentou a criação e gerenciou o Programa Cultura do SESC Ceará onde criou e coordenou, entre outros projetos, a Mostra SESC Cariri de Culturas. Foi a responsável pela curadoria do projeto “Traga a França para os meus versos e leve os meus versos para França”, dentro da programação do Ano França/Brasil na Universidade de Poitiers e criou a Mostra SESC Luso-Brasileira, em Coimbra/Portugal. Por 13 anos foi a curadora representante do Ceará nos projetos Palco Giratório – Rede Nacional de Difusão e Intercâmbio das Artes Cênicas e Sonora Brasil – Formação de Ouvintes Musicais. Sócio-fundadora da Ong BEATOS – Base Educultural de Ação e Trabalho de Organização Social. Realiza palestras e oficinas sobre Gestão Cultural em diversas regiões do país. Vencedora do Prêmio Claudia 2012 (maior premiação feminina da América Latina realizada pela editora Abril) na categoria Cultura. Atuou como Membro do Conselho Estadual de Cultura do Ceará, consultora da Associação Teatro da Boca Rica e Professora convidada do Curso de Gestão Cultural do CPF – Centro de Pesquisa e Formação do SESC SP. Desenvolve trabalhos e pesquisa na área de tradição popular. Secretária de Cultura do Município de Crato (2013-2016). Coordenadora do Escritório Regional de Cultura Cariri/SECULT CE e Escola Vila da Música Monsenhor Ágio Augusto Moreira.


Referências:

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Benhamou, Françoise. A Economia da Cultura. Tradução: Geraldo Erson de Souza. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.

Bernard, François de. Por Uma Definição do Conceito de Diversidade Cultural. In: Brant, Leonard (Org.) Diversidade Cultural. Globalização e Culturas Locais: Dimensões, Efeitos e Perspectivas. São Paulo: Escrituras Editora/Instituto Pensarte, 2005.

Brasil. Ministério da Cultura. Caderno “Diretrizes Gerais Para o Plano Nacional de Cultura”. 2. Ed. Brasília: Minc, 2008

Coelho, Teixeira, 1944 – A cultura e seu contrário: cultura, arte e política pós – 2001/ Teixeira Coelho. – São Paulo: Iluminuras: Itaú Cultural, 2008.

Furtado, Celso. Cultura e Desenvolvimento em Época de Crise. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.

Geertz, Clifford, 1926 – A Interpretação das Culturas / Clifford Geertz. – 1.ed. – [Reimpr.] – Rio de Janeiro: LTC, 2012.

Leitão, Cláudia (Org.) – Gestão Cultural: significados e dilemas na contemporaneidade. Cláudia Leitão (Org.) In – Fortaleza: Banco do Nordeste. 2003.

Lustosa da Costa, F. Plano de Ação da Bacia Cultural do Araripe para o
Desenvolvimento Regional.
Fortaleza: Secult, 2006.

MARQUES, Roberto. Contracultura, tradição e oralidade. (Re) inventando o sertão nordestino na década de 70. Fortaleza: Anablume, 2004.

Ortiz, Renato, 1947 – Cultura brasileira e identidade nacional / Renato Ortiz. – 5ª ed. – São Paulo: Brasiliense, 1994.


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Mortality rates among older children and young adolescents (aged 5-14) also dropped by more than 50 per cent since 1990, yet almost one million children died in this age group in 2017 alone. UNICEF, 2018


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