As “Gentes” na Marcha Artística: Cultura, Tradição e Memória Pelo Fio da Experiência e Contato.

Sob um afresco pintado no fim do século XVI, localizado em uma antiga casa chamada “Casa del Dean” na cidade mexicana de Puebla, Serge Gruzinski escreve a partir de uma curiosidade. Acontece que, na pintura, se encontra o macaco Ozomalti – símbolos do calendário asteca, associado a boa fortuna e a alegria – e a centaura Ocyrhoe – semideusa do paganismo grego, a que revelava os segredos do destino.

O que se sobressai aos olhos diz respeito a uma convivência de tradições distantes. Logo, como um pintor do século XVI articularia e interpretaria os símbolos para assim os colocar em convivência?

O encontro de tradições, certamente, não obteve a mesma ação contínua que o pincel do autor pôde ter, enquanto deslizava pelo afresco. A convivência do macaco e da centaura tem por substrato, uma rede de constantes trocas, negociações, alianças, guerras e destruição, que foram feitas sobretudo nos séculos XV e XVI, onde homens se jogaram ao mar em busca do novo. Assim, o nomadismo humano constrói ligações sustentadas pelas especificidades de cada cultura e a arte, nesse caso, foi um elemento que sustentou as relações de colonização para o pintor.

Nesse sentido, a arte se apresenta pelo seu pluralismo. “Gentes” construíram arte, e quando digo “gentes” me refiro……..

Redes, ligações e sentidos dão o tom do contato básico humano. Entretanto, é necessário salientar que pessoas, ao contrário de sobreviverem pela neutralidade no embalo de uma identidade “a folha branca”, são compostas pelo que vivem e, consequentemente, pelo que experimentam. O macaco e a centaura são um caso clássico disso. O repasse ancestral de uma cultura gera tradição, que, por sua vez, dá espaço a experiência, preservando as sensações e sentidos na memória, sendo que, esta última, crava no peito a dor e o prazer do ser e do viver.

Esse movimento de tantas continuidades, assim como todos os outros na vida, é passível à descontinuidade e quando isso ocorre… a cabeça do rei rola guilhotina a baixo, o monge agostiniano se levanta contra a Instituição mais poderosa do seu tempo – a Igreja – a mulher passa a conceber uma vida livre das prisões de gênero, e entre outros eventos.

Ao contrário de uma fala contra todas as continuidades da vida, expresso os movimentos de descontinuidade a fim de saltar aos olhos os resultados colossais de passos que caminharam numa marcha contrária de seu tempo. Ao fim e ao cabo, novas expressões de arte, cultura e criatividade, surgem nos passos e contra passos da vida, e, na medida em que experimentamos as falas, ações, minúcias e memórias – sejam essas últimas nossas ou carregadas apenas no intento pela sua construção em nós, a partir de uma cultura familiar, social, etc.

Nada se encontra desconectado. Tudo é parte de um constructo. Cabe a nós, portanto, selecionar a medida do passo e contra passo na nossa arte, dando voz ao que, pelo contato e experiência, criamos de vínculo de memória.

Dessa forma, vale ressaltar também uma das figuras que sempre retorna a minha mente: Katharina Schutz Zell, que foi “[…] uma das teólogas leigas mais impressionantes da primeira geração do movimento protestante” (McKee,2000, pg. 225). Com uma escrita ativa e com publicações em defesa de sua fé, ela não hesitava em atribuir uma imagem maternal a Cristo, aliando o conceito de “sola gratia” ao amor ao próximo.

Enquanto escritora, Katharina se demonstrou anfitriã do apaziguamento, mas não refletiu uma escrita inofensiva, pelo contrário, “Katharina também estava ciente de que, como uma mulher com opiniões e valores pessoais muito fortes, nem todas as pessoas lhe davam apoio”.

Ela escreveu:

“O que posso fazer ou alcançar agora que sou uma mulher pobre, que,
muitos dizem, deveria girar e cuidar dos doentes… Estou convencida de
que, se eu concordasse com nossos pregadores em tudo, eu seria chamado
de mais Uma mulher piedosa e conhecedora nascida na Alemanha. Mas,
como discordo, sou chamada de arrogante e, como muitos dizem, doutor
Katharina” (Zitzlsperger, mãe, mártir e Maria madalena. Pg 388).

Enquanto um exemplo pessoal, onde num campo de afeto, retorno pelo uso de continuidades e descontinuidades na vida de Zell, quero ressaltar que, essa mesma figura (assim como todos nós em alguma medida) era uma composição, uma congruência de indivíduos marcantes que haviam passado por sua vida e por sua devida autenticidade, que foi gestada pela capacidade crítica de articular o feminino e a teologia no século XVI.

Em suma, a missão deste ensaio é a proposição consciente de uma arte que se forma e que é sustentada pelo plural, recebido pelos afluentes mais distintos que passam por nossa vida, além de um filtro próprio construído pela experimentação e leitura específica que fazemos sobre a vida. Dito isso, dedico este ensaio a todos os afluentes femininos que passam pela minha vida e que, corajosamente, defendem seu lugar social diariamente.

A Alyne, Clarice, Débora e Larissa, minha sincera admiração e afeto.


Gyovana Machado é graduanda em História pela UFJF, formada no Seminário Teológico Rhema Brasil, líder de música em A Igreja.


Food insecurity contributes to the major challenge of undernutrition, which is also caused by inadequate health services, poor water and sanitation, inadequate infant and young child feeding practices, and high illiteracy rates among women. World Food Programme.

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