Os Sentidos da Índia

Depois de meses conturbados, com reviravoltas pessoais, profissionais e afetivas, faz-se o que o clichê manda: quando quer entrar em contato consigo mesmo, vá para a Índia.

Desembarcar em Delhi ao fim de abril e sentir o calor de quase 50 graus é a primeira das muitas lições sobre aceitação. As tradições religiosas e filosóficas de lá só poderiam ter vindo de lá.

A constante surpresa do viver lá, notada pela inconstância percebida pelos cinco sentidos, pode trazer reflexões sobre pontos característicos importantes e questionamentos interessantes – especialmente para quem já teve o privilégio de viajar para alguns países diferentes:

  • O que é inerentemente ocidental?
  • O que parece ser inerentemente humano?
  • Fundamentalmente, como se monta a realidade indiana em detrimento da realidade ocidental?

“chamei a linguagem de casa do ser. Se, pela linguagem, o homem mora na reivindicação do ser, então nós europeus, pelo visto, moramos numa casa totalmente diferente da oriental (…) Assim a conversa de uma casa para outra torna-se quase impossível”
(Heidegger, Martin. A caminho da linguagem. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Ed. Universitária São Francisco, 2003, p. 74.)

Tomando como verdade que a linguagem é parte fundamental do que é “ser” e todo o desdobramento sobre o que é realidade, aliado ao alfabeto usado como axioma linguístico no ocidente (todos usamos as mesmas letras, com poucas diferenças), quais são as consequências manifestadas de forma concreta entre as realidades de lá e de cá?

Afinal, os desenhos usados na comunicação escrita Hindi não se assemelham com nosso alfabeto.

Ou seja, o que é que há lá de tão diferente daqui? O que é semelhante?

Que a Índia é um vulcão cultural e social em constante erupção não é novidade. Mais de um bilhão de pessoas em um território menor que o Brasil, tendo como proposição aspectos básicos diferentes dos conhecidos por nós, dificilmente seria diferente.

As reflexões da viagem que servem de base para esse escrito foram fruto da minha própria experiência individualizada, inexoravelmente humana; longos diálogos com razoável nível de intimidade com um motorista de Delhi em viagem pelo Rajastão durante duas semanas; e diálogos com professores de yoga em Rishikesh.

A vivência trouxe percepções distintas e maneiras de responder às complexas questões fomentadas no início do texto.

1) O trânsito e a comunicação

Diferente da maior parte do ocidente, onde a comunicação no trânsito é primariamente visual, a comunicação no trânsito da Índia é primariamente sonora.

Para quem já viu (e ouviu) vídeos, o constante som das buzinas que se ouve lá não se ouve aqui. O significado de buzina, cá nesses cantos, é um aviso, um sobreaviso, ou reclamação.

Por lá, é um simples “estou aqui” constante, já que os motoristas não usam os espelhos – ao menos, não como nós. Os espelhos das motos são comumente removidos ou torcidos para dentro. O retrovisor dos carros é usado como espelho de uso pessoal, para checar a própria estética, e não como instrumento de localizar outros automóveis.

Outra questão tomada como axioma até que se pise por lá é o conceito de calçada: não há. Na rua andam carros, motos, caminhões, pessoas e vacas.

No aparente caos de uma comunicação pautada pelo barulho das buzinas, quem menos parece perceber (ou se importar) com a fluidez? As vacas. Constantemente, param para descansar ou quando encontram algum alimento caído pelo chão.

2) Alimentação

A comida indiana é vegetariana em sua maioria. Ao menos a hindu. Vê-se carne de galinha em bairros muçulmanos, mas o comércio de carne animal é proibida em cidades sagradas (como Varanasi, Rishikesh, Pushkar, …).

Baseada em arroz, lentilha, curry e pão, há inúmeras variações nos preparos de cada um desses itens. O que não varia, porém, é o apreço pelos temperos: cominho, cúrcuma, pimenta, gengibre, coentro são frequentemente colocados nas infinidades de pratos servidos na Índia.

O próprio comer, no entanto, chama mais a atenção: não se usa talheres como aqui. O ato de alimentação, sagrado, é algo que deve envolver os cinco sentidos:

Paladar: ao sentir o sabor dos alimentos
Visão: observa-se a comida – com suas cores expressivas – antes de ingeri-las
Olfato: cheira-se o alimento antes de começar a comer
Audição: ao morder algo crocante (alguma fritura ou vegetal antes do cozimento completo)
Tato: come-se com as mãos (mesmo que seja arroz com lentilha)

Comer usando os cinco sentidos muda o significado do próprio comer. Sente-se uma conexão maior com o alimento. Poder sentir o calor e a temperatura emanando através do tato das palmas das mãos prepara o corpo para receber a comida.

3) As constantes surpresas: cheiros e andanças

Caminhar em diferentes cidades da Índia traz uma coisa em comum: o inesperado cheiro.
A cada respiração, e impossível prever o que o olfato vai trazer.
O penetrante cheiro quase sólido da pimenta, lubrificando instantaneamente os olhos;
O desagradável cheiro do esterco das inúmeras vacas;
Ou, numa respiração no passo seguinte, sentir a mistura de cheiros sendo fritos em qualquer canto, salivando instantaneamente a boca.

Não só nos cheiros reside a sequência de surpresas – também através da visão:
A cada entrada em uma nova via, a imagem é frequentemente inesperada:
uma vaca deitada, descansando do escaldante calor;
uma criança sozinha, brincando, olhando penetrantemente não para mim, mas através de mim;
um pedinte balançando seu pote de moedas;
ou um grupo de mulheres com seus sáris de cores saturadas.

A inconstância de lá é quase um lembrete de que tudo se renova mais frequentemente do que costumamos notar cá no ocidente.

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4) Arte e Arquitetura – detalhes e circular e caminhões e religião.

Nos palácios, templos e outros painéis de expressão arquitetônica ou graficamente artística, nota-se uma coisa: o oriente é redondo.
Saem os ângulos, entram os círculos.
Nesse caso, é especialmente difícil presumir se é causa ou consequência da linguagem.

Comparativamente, a estrutura da crença é diferente das ocidentais. Enquanto cá há uma superutilização da dualidade (como criticavam tantos, dos quais o autor desse texto tem um apreço especial por William Blake em O Casamento do Céu e do Inferno), lá tudo é em trios e cíclico.

São três as deidades supremas (Brahma, Vishno, Shiva), bem como diversos outros conjuntos triplos (os doshas, os gunas, etc).
Como consequência da crença cíclica, a reencarnação e a possibilidade de viver muitas vidas é parte tomada como verdade na cultura indiana.
Talvez isso explique, em termos, a relação deles com o tempo diametralmente oposta à ideia de pressa e produtividade; muito notável é a diferença entre a pressa sem razão, comum a metrópoles ocidentais, em
comparação ao não se importar com esperar a vaca se levantar em uma passarela de pedestres que ocorre por lá.

5) Expressão, a timidez e a curiosidade das crianças

Nesse ponto, há de se crer que parte das expressões corporais e faciais são inerentemente humanas. Impossível não notar o olhar curioso e tímido de crianças que poucas vezes viram um ocidental branco em sua frente. O olhar para baixo, consequente da timidez, como resposta a um simples oi é, ou melhor, talvez seja, universal.

Por outro lado, um gesto classicamente indiano é compreendido ocidentalmente com, suponho, grande ruído: o balançar lateral da cabeça como resposta, onde ocidentais esperamos entre o sim e o não, o céu e o inferno.

O gesto, por si, é até difícil de copiar: com um leve movimento do pescoço (e apenas do pescoço), as orelhas pendem para um lado e para o outro.
De difícil compreensão, muitas vezes substituí o “talvez” ou o “não sei”. Impossível cravar, entretanto – supõe-se expressão inexistente nas Línguas que falo.

6) Selfies e a globalização

As selfies cumprem papel notável no cotidiano indiano e de maneira que a nós não é convencional. As inúmeras fotos tiradas de si (solo ou em grupo) não é novidade e provavelmente fruto da ocidentalização… Mas como é notável que tenha caído como uma luva no gosto popular indiano. Curioso, no entanto, é reparar que o uso das câmeras de selfie são usadas para registrar, inclusive, o que se está a frente.

Mais frequente do que raro, vê-se a população local filmando rituais com a câmera frontal do celular, apontando a própria tela para o objeto do registro.
Hábito do uso frequente de tal câmera?
Desapego sobre a necessidade de controlar o que está sendo passado?
Difícil propor respostas.

Além da selfie, vê-se rapidamente outros aspectos da globalização: diversos cremes corporais que prometem clarear a pele, a ascenção do número de casamentos por amor (love marriage, como dito por lá) em detrimento dos casamentos arranjados e uma tímida destabulização da prática sexual antes do casamento, escorrendo através da internet e aplicativos de encontros.

7) Relação com comércio

Para quem vive em locais onde o (que chamamos de) progresso social já chegou, muitos traços da cultura são, de certa forma, chocantes: machismo, pobreza extrema, imprudência higiênica, dentro outros.

Abstraindo e deixando de lado esses traços que soam, por si, desafiadores, há um outro ponto notável e exaustivo sobre ser estrangeiro na Índia: a relação com o comércio.

Duro se acostumar com a ideia de não existir uma linha notável entre o que é gentileza de estranhos e o que é “estão sendo gentis apenas para tentar me vender”.
Praticamente indissociáveis, são escassas as experiências de receber gentilezas “de graça”, como nós “brasileiros cordiais” estamos acostumados. A gentileza e curiosidade sobre a origem, o que busca por lá, dentre outras perguntas mais profundas do que o que se ouve como turista em outros lugares é perceptível. A associação disso com um convite a conhecer a loja do interlocutor inicialmente interessado em sua história, também.

Desde, pelo menos, o século V a.C., invasões e saques por estrangeiros brancos ocorreram e ocorrem por lá, quando Alexandre, O Grande e seu exército invadiram o norte só subcontinente indiano.

Refletindo, não é improvável que a cultura se moldasse a aprender como lidar comercialmente com estrangeiros brancos.

8) Ancestralidade

Por último, das inúmeras experiências, o que há de mais valioso na vivência indiana é o contato com a ancestralidade.
As relações humanas e olhares parecem ter menos máscaras: não se disfarça surpresa quando se está surpreso. Não se disfarça interesse – seja lá qual for – quando há interesse.

Há medos, conexões e sentidos despertados mesmos nos centros urbanos indianos.

É como misturar, numa grande panela, os estímulos e estresses de grandes centros urbanos e uma dose grande de sensações despertadas com contato íntimo com a natureza, na presença de animais não domesticados. Por cima de tudo, adiciona-se um bilhão de pessoas, mais de vinte Línguas e 100 dialetos.

Como se aceita tamanha quantidade de estímulos?
A experiência diz, só tem um jeito: aceitação.


Mateus Mecunhe é um rapaz, quase 30, se encontrando entre yoga e programação (que são muito mais parecidos do que se pensa)


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