Também as Mãos Aram a Terra Preta

Tudo gira em torno das mãos: elas que são acorrentadas, presas, paralisadas, algemadas: pois elas iniciam as mudanças. Ao mesmo tempo em que se encontra uma pele fina, que acaricia e transmite afeto, esse sentimento revolucionário, as mãos também batem, cerram-se os punhos contra o que os oprimem. Não há protagonista histórico maior do que as mãos: e se a carne preta é a mais barata do mercado, as mãos negras são as mais potentes.

O documentário “Terra Preta”, que conta a história da comunidade quilombola São Pedro, localizada no Vale do Ribeira, trata disso com uma sensibilidade ímpar. Produzido por alunos de jornalismo da PUC, entre eles Guilherme Prado, Ananda Portela, Evelyn Nogueira, Eduardo Gayer, Marianna Rosalles, Gabriela Tornich, Marilia Maaz e Fernanda Gutschow, é possível mergulhar de cabeça por cada camada sobreposta de linguagem e significado.

As entrevistas estão lá, o conteúdo político declarado, os sonhos terrenos expostos em palavras. Mas é preciso olhar melhor. Afinal, o que há de implícito na imagem, essa composição que nos atravessa por inteiro sem avisar? Está ali, embaixo do entrevistado, que fala das suas vivências e das questões locais, sentado sobre caixas. Essas que precisam de mãos para ser utilizadas. As miudezas também se guardam no fundo, naquela casa de pau-a-pique atrás do Seu Orides, levantada, bambu por bambu, barro por barro, com as mãos. Quando de pé, pode ser difícil distinguir entre o alisar as paredes para dar acabamento e a carícia gostosa de construir um lar.

Ao final as mãos retornam, agora firmes, indo de encontro à pele do pandeiro e dos tambores: as mãos também resistem enquanto produtora de sons e ritmos. São neles que muito se preserva e o passado se transmite. A abertura do documentário, em que se pode ouvir um pai nosso, que geralmente é rezado com as mãos juntas, se liga diretamente com a capoeira no final, que unifica a todos como se as mãos, ali naquela roda, estivessem juntas.

Tão importante, também, são as mãos envolvidas na produção, porque tudo envolve mãos: da anotação da ideia no bloco de notas do celular até a assinatura pra venda dos direitos pra TV aberta. Sem essas mãos, que produzem, filmam, dirigem e editam, não há projeto, não há trabalho nem mudança. Sem essas mãos que mexem na ferida, não há melhora.

Enfim, é preciso compreendermos que somos todos uma espécie de mão, enquanto o mundo que nos cerca é argila. Apesar de rígida e difícil de modelar, somente mãos resistentes e convictas conseguem fazer esse trabalho. Assista ao documentário, na íntegra, aqui e o leve, pra vida, aí:


Marcus Cardoso, historiador de formação, mestrando, músico… Faz tanta coisa que acaba não fazendo nada. E, se somos o que fazemos, então é isso: um grande nada que acredita piamente que a salvação do mundo está escondida em um haicai.


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Nearly half of all children in sub-Saharan Africa are living in extreme poverty, according to a joint Unicef-World Bank report released on Tuesday, with figures showing that almost 385 million children worldwide survive on less than $1.90 (£1.50) a day, the World Bank international poverty line. The Guardian.

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