Arte, Angústia e Espiritualidade

Na criança, ainda recente de nascimento, que chora a ausência do leite materno, no jovem que se arde em decepção pelo término amoroso e no velho que teme a proximidade da morte, o ser humano experimenta, todos os dias de sua vida, a angústia. Esta, por sua vez, alvo das atenções e intensas palavras de Kierkegaard e Sartre ́e, para mim, ponto crucial na vida humana.

Segundo Sartre, escolher ser isto ou aquilo é afirmar, ao mesmo tempo
o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos
. Portanto, para ele, o homem angustia-se em sua própria liberdade, carregada de responsabilidade, uma vez que escolhe sempre o que é bom, num sentido pessoal e que se estende ao coletivo. De forma distinta, penso que a angústia reside na ausência da liberdade e na impossibilidade humana em escolher o que é bom. A criança chora ante a impossibilidade de saciar sua fome, o adolescente se angustia ante a impossibilidade do amor, e o velho ante a incerteza de sua própria vida.

Para Kierkegaard, a angústia é a liberdade como possibilidade antes da
possibilidade
, é o conflito entre o desejo e o medo, a permissão e a proibição, e a proibição produz angústia, pois desperta a possibilidade da liberdade. É a luta entre o hermetismo e a revelação,entre o silêncio e a comunicação.

E indiscutível que a comunicação da angústia tem efeito curativo não só na vida de quem comunica, mas também na de quem escuta, e, nesse aspecto, a arte é ferramenta poderosa. No entanto, pode-se perguntar que efeito a arte, por si só, produz no indivíduo angustiado?

Certa vez um profeta disse: Ah, minha angústia, minha angústia! Eu me contorço de dor; O meu coração dispara dentro de mim; não posso ficar calado; contudo também constata que, enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto. Ouço as palavras do profeta e as traduzo como sensatas e perfeitamente ajustadas à mim e ao mundo que me cerca. Como pode emanar, do coração corrupto, inspiração para partilhar a angústia com o outro e esperar que se enxergue seu efeito curativo? Concluo que a arte por si só é ineficaz para esse propósito.

Para que a arte seja eficaz como instrumento da comunicação, e para que a comunicação cumpra seu papel curativo na vida do indivíduo, penso que é necessário submeter o processo criativo à lente da espiritualidade, como um ourives que precisa gravar detalhes sutis numa peça e, para isso, lança mão de um olhar mais sofisticado sobre a mesma.

No entanto, é necessário que essa espiritualidade seja subversiva ao coração humano e vá de encontro às suas concepções e percepções da vida, pois, se a mesma assemelha-se, minimamente que seja, ao coração e às percepções humanas, então, lá estarão a angústia e o sofrimento, e a arte não cumpre seu papel na comunicação curativa. Pelo contrário, conduz ao enclausuramento.


Gustavo da S. Lima é estudante de engenharia elétrica pela UFJF, cristão reformado, músico, ama teologia, filosofia, churrasco e ”The Creation”de Joseph Haydn.


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