Sobre Homens e Ratos

Dizem que há por debaixo da cidade uma quantidade gigantesca de ratos, e que se ela vier à superfície, não haverá mais espaço para a população humana.

Dizem que eles nos deixam caminhar e namorar e viajar e trabalhar e acumular e matarmos uns aos outros e nos queimarmos à vontade. É tudo um deleite, para todos.

O grande parque central esboça uma possibilidade de virem à tona, com seus transeuntes roedores nem sempre visíveis a olhos anestesiados.

Os menores pipocam – voam mesmo! – pelos canteiros de folhagem quase rasteira. Viram brincadeira de criança. Até porque, adulto também brinca.

E são esses os se afligem quando, raramente, veem os maiores.

As fétidas mães das pipoquinhas rodam o parque às braçadas.

Os carteadores jogam livremente, tranquilamente, quase impunemente sob seus olhos. Pertinho do escorregador e do paço municipal.

Passar por uma pinguela não significa que o riacho é fundo.

Há muito tempo se diz que os ratos não podem morrer na calçada.

Se você já se deparou com essa situação pode significar três coisas: a primeira é que o cadáver ainda está fresco e que cometeram o erro de não serem ágeis o suficiente para recolher o corpo. A segunda é que algo de muito mais perturbador está acontecendo bem ao seu lado, algo muito mais inacreditável e que aquele corpo ali, bem à sua frente, é apenas uma distração. Por sua vez na última possibilidade, o tal corpo pode ter sido assassinado por você. Isso! Sabe quando você até saliva sabendo que cumpriu o seu dever? Que tocou com sua própria mão os olhos cegos da justiça? Isso! Matar um rato é a coisa mais justa que se pode sentir aos lábios de um bom ser humano!

Porém… – ahh porém! – e se justamente aquele rato que passou pela pinguela do rio raso, e que no meio do caminho foi assasinado pela audaz justiça humana pudesse ter sido apenas um deles que não tinham mais serventia, ou que cometeu um pequeno delito? Poderia também ser só um ser humano que tentou se passar por eles.

O certo é que ele foi colocado ali enquanto os maiores continuavam invisíveis.


Guilherme Portes é artista, professor e arte-educador graduado em artes. Desenvolve pesquisas com fotografia analógica.


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