Hitoshi-san e os Limites do Humor.

Nesta última semana, casualmente, trombei com este experimento antropológico em formato de programa de comédia, o ‘Hitoshi Matsumoto presents Documental’. Poderia ser um reality/concurso normal de comédia, já que são 10 comediantes japoneses disputando um prêmio de 10 milhões de ienes (cerca de R$350.000).

Mas Documental é tudo, menos um reality ordinário. Foi uma tempestade perfeita que acabou entregando um estudo visceral sobre comédia, limites e inteligência, temperado com nudez não sensual, alguma violência e um profundo respeito entre os competidores. 

A premissa é relativamente simples: o host, Matsumoto-san, um comediante em torno dos 50 anos de idade e profundamente respeitado no Japão, (para uma comparação ocidental, acredito que é como se o Seinfeld fosse o anfitrião de um programa americano), envia 10 convites para participar de um combate de comédia. Cada um dos participantes tem que pagar 1.000.000 de ienes para participar (o que é GENIAL, muitos dos convidados precisam emprestar dinheiro de banco ou de amigos pra bancar a taxa e outros ficam muito na dúvida se vão participar – nessa hora que a credibilidade de Hitoshi vale, já que ninguém quer recusar um convite dele), e o vencedor leva os 10.000.000 pra casa. A mecânica também é básica: quem rir é eliminado, é tipo brincar de sério ultimate. Ao longo das seis horas do prazo estipulado, os comediantes tentam fazer rir sem cair em suas próprias armadilhas, criam estratégias para o riso ser inevitável e, no processo, fazem a gente levantar um monte de reflexões sobre o que é engraçado de verdade.

Há alguns deslizes, que são próprios de um retrato da sociedade japonesa (em três temporadas que vi, só houve uma convidada, os outros 30 comediantes que estrelam, contando o host Matsumoto, são todos homens, por exemplo). Em alguns momentos o machismo estrutural e um grau de homofobia também aparecem, ainda que não com o escracho que estamos acostumados a ver em nossa TV.

O resultado é estrondoso e, talvez, os mais sensíveis não devam – ou consigam – assistir. Como, quando no meio da primeira temporada ou o final da segunda (batizado pela produção como os 657 Segundos Históricos da Comédia Japonesa, de onde tirei esse frame que ilustra o post). 

Pra mim, estragou a comédia. Porque não consigo achar graça de mais nada. Talvez seja irresponsável ajudar a popularizar algo tão poderoso, mas eu PRECISO ter mais gente pra comentar.

O Keesse já caiu na armadilha e está há 48 horas em depressão.

Assista, por sua conta e risco.


Bruno Honda Leite é pai , marido e vovô, mas está várias coisas: designer, artista plástico, diretor de animação, palmeirense, leitor de quadrinhos e rabiscador compulsivo. Trabalha na Mauricio de Sousa Produções há 8 anos, onde é responsável pelo departamento de Design de lá e também trabalha com planejamento estratégico e animação, onde participou da criação de Mônica Toy, Biduzidos e Bairro do Limoeiro. Vive desenhando e adora passarinhos vestidos.


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