O Ser Urbano: a Música dos Ecos e Sua Relação com a Cidade.

A letra da música tem que ser verdadeira, o autor dela precisa ter o mesmo caráter que a mensagem carrega, como diria Rookmaaker, disseram os meninos do Clichê. 

Lucas e Guilherme compõe o que hoje se entende enquanto música alternativa no cenário cristão. “O maior clichê do mundo” – nome pelo qual se denominam – busca uma conexão para além dos templos, dialogando com outras perspectivas artísticas, bem como se apresentando em locais não-usuais para bandas confessionais. 

De fato, Hans Rookmaaker (escritor holandês) sempre pairou nos pensamentos de um coletivo que possuía ânsia por uma arte sem barreiras, uma expressão cultural não necessariamente sacralizada, que entraria nos templos e meios convencionais cristãos sem que isso demandasse um certo tipo de justificativa. A arte é júbilo perante a face do divino – parafraseio o autor. 

Conheci os meninos do Clichê em um festival e vi, ainda que nos detalhes, a interpretação do que entendíamos enquanto uma teoria ainda em análise: a arte vem, embala os corpos num ritmo próprio, batendo à porta do convencional, a fim de sinalizar as demandas históricas que a trouxeram. 

Essas mesmas demandas são caracterizadas, pelos rapazes, como uma identificação. Vão além e dizem: respondemos a quem se identifica.

Nesse sentido, a visibilidade da banda produziu certa conexão aos anseios dos mais longêvos. Curte-se uma música boa e não se abdica da fé, pelo contrário, desfruta de mistérios, sensações e sabores remetidos aos que criam, numa relação infinita de criação e criador em todas as escalas. 

As estruturas nas quais são gestadas essas demandas não necessariamente dizem respeito a uma comunidade de fé, mas a uma sociedade e/ou cidade que produz perguntas a todo instante.     

Dentro da pólis, onde o público se mistura com o privado, a estética alternativa surge enquanto um eco de perspectiva que, por sua vez, pode possuir um caráter de orientação, ou até mesmo de suspiro, devido aos grandes blocos que padronizam a nossa resposta ao mundo, ou ao menos ao que, exteriormente, esperam de uma resposta nossa. 

Diferenciados em sua própria composição visual, os meninos se apresentam em dois. Irmãos de sangue foram introduzidos na música ainda na infância propiciado pelo pai. Nota-se, em sua fala, as raízes que se formaram pela introdução e confirmação dos mesmos na música, embasados pela relação paternal. 

Assim sendo, encaram a cidade com as certezas que os fizeram estar ali e não necessariamente com a liquidez na qual se dá seus respectivos relacionamentos com os lugares que frequentam e com a própria cidade (leia-se estruturalmente) que, em certa medida, limita suas formas de interação. 

Nesse sentido, os meninos se desafiam numa espécie de manutenção progressista daquilo que entendem como essência. Dizem: – somos o que somos, não o que fazemos.

Dentro de uma perspectiva que os enxerga dentro do seio cristão, eles chamam a atenção para dois elementos, a saber: o equilíbrio e a excelência. 

Assim como Rookmaaker, abdicam de uma interpretação tradicional daquilo que é espitirual, para que se possa abranger todas as facetas criativas do criador sem, necessariamente, sacralizá- las num experimento de grupo.

Destarte, se interessam e trabalham pelo encontro dos “mundos” pela via da excelência enquanto fator que provoca a estima pelo que produzem.

Acredito ser esse o ser urbano do século XXI: um indivíduo que lança a público suas questões com o presente e seus contemporâneos, suas perguntas e também respostas de como vivem, o motivo pelo qual vivem, etc. É, explicitamente, uma relação do dever-ser.

Nesse ponto em que chegamos, numa escala complexa das relações humanas, me contento com a expressão de Blaise Pascal sobre a razão/infinidade, ele diz: “O último esforço da razão é reconhecer que existe uma infinidade de coisas que a ultrapassam”. 

Portanto, hoje não temos uma justificativa que conclua o ensaio. Suas experiências darão um tom próprio ao que foi expresso por aqui. De toda forma, os meninos do Clichê finalizam bem essa sensação do infinito na arte e sobre isso, concluem a entrevista: – Nós somos o Maior Clichê do Mundo – eu, então, concordo. 


Gyovana Machado é graduanda em História pela UFJF, formada no Seminário Teológico Rhema Brasil, líder de música em A Igreja. 

Colaboração: O Maior Clichê do Mundo.


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