Um Vento Bateu Dentro de Mim

No dia em que conheci Ilo Krugli, não o reconheci. Não o reconheci por não o saber. E não saber é exatamente a ausência de conhecimento a seu respeito. Eu poderia dizer que o saber de sua existência me foi negado pelas tantas distrações que a vida nos cerca. Mas, em meu parco conhecimento, na sombra da escuridão monumental da ignorância, imerso em um cotidiano enlatado, o fato é que eu não o soube. E me envergonho.

Quando Dane me levou pra conhecê-lo, ao entramos onde Ilo vivia integrado ao seu teatro no tombado Parque do Povo, no bairro paulistano do Itaim há décadas, um vento bateu dentro de mim, que eu não tive jeito de segurar.

Ademais da referência à canção de Joyce e Maurício Maestro, eternizada na voz de Milton Nascimento e Boca Livre, hoje pude enfim perceber a importância daquele momento.

Diante do respeito e reverência com que cada olhar cuidadosamente varria todos os detalhes de cada semblante naquela noite fria e chuvosa, eu soube que estávamos entrando em território sagrado. Local onde as artes, em sua dimensão mais humana e verdadeira, reverenciavam Ilo e a companhia ventoforte.

Diante da simplicidade de uma roda de conversa com uma fogueira posta ao centro, o calor e a luz dimensionavam as atenções para dentro dos olhares tímidos das crianças e para cada um de nós. Canções e poemas eram entoados como orações à tudo aquilo que é sagrado nas artes.

Para quem, ali presente, encontrava em Krugli mais do que um anfitrião ou referência artística, cada instante em sua presença era um privilégio que eu ainda não entendia, mas podia sentir.

Ao olhar no fundo dos olhos de Ilo por alguns instantes, apesar de sua condição já debilitada pela idade avançada, pude perceber o motivo da euforia daquela reunião tão simples e tão solene.

Krugli era uma força da natureza, que equilibrava toda a ordem do universo espalhando o amor através das artes e da beleza de perceber a vida como um grande espetáculo.

Hoje, ao saber de seu falecimento, mais uma vez, um vento bateu dentro de mim. Que esse ventoforte carregue pelos quatro cantos do mundo a beleza do legado de Ilo Krugli, e que cada um de seus companheiros, espalhe suas sementes cultivando o amor e tudo aquilo que é belo e sagrado.


Frederico Lopes é Artista e gostaria de ser Escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.


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