3. Olhar

Ela estava na cozinha manejando uma panela de pressão para preparar feijão, o marido tinha ido à farmácia comprar remédio de controle à sua pressão e o filho estava no quarto com um fone enorme no ouvido pronto a acionar seu spotify enquanto trabalhava em um texto para entregar em um jornal local. Na varanda, a cadela, deitada, alimentava seus filhotes com a língua para fora observando uma borboleta amarelo arlequim que rodopiava no ar à procura de um repouso, encontrando-o no alpendre da porta que dá acesso à cozinha. Baby, compra o jornal / E vem ver o sol / Ele continua a brilhar / Apesar de tanta barbaridade. Após ligar o fogo, a trempe fumegando, foi até a varanda, colocou água no pote vazio para a cachorra, acendeu um cigarro, motivo de suas constantes tosses noturnas, deu um trago profundo observando sua cria e seus filhotes com a mão na cintura. Foi aí que pensou que poderia ajeitar um dos recém-nascidos, sufocado entre os outros e sem a sua teta própria para consumo do leite materno. Baby, escuta o galo cantar / A aurora dos nossos tempos / Não é hora de chorar / Amanheceu o pensamento. Com certa dificuldade, abaixou-se para pegar o bichinho, ao que foi respondida por um rosnar entredentes; levantou-se com o animalzinho no colo; a cadela avançou sobre ela com todos os dentes e boca e olhar aterrador, o filhote caiu, ela se protegeu com o braço direito, cuja parte da pele ficou na boca do animal e o sangue escorreu pelo corpo e chão. O poeta está vivo / Com seus moinhos de vento / A impulsionar / A grande roda da história. Saiu correndo, avançou a cozinha, entrou no corredor da casa que dá acesso aos quartos e à sala e escorregou na própria poça de sangue, sendo perseguida pelo bicho insano; gritou pelo filho, os cotovelos ensanguentados apoiados no chão. Mas quem tem coragem de ouvir / Amanheceu o pensamento / Que vai mudar o mundo / Com seus moinhos de vento. No exato instante em que o marido dobrava a maçaneta da porta de entrada, a besta feroz avançava sobre sua mulher e lhe arrancava parte do lábio inferior, deixando-lhe as gengivas à mostra, num sorriso forçado e insano. Baixo, atarracado, porém forte e rijo, Toni avançou sobre a cadela e lhe desferiu um chute certeiro na cara, ao que ela caiu cambaleante; pegou-a pela coleira, arrastando-a de volta à varanda marcando ainda mais a trilha vermelha no chão; fechou a porta, deixando-a lá fora. Se você não pode ser forte / Seja pelo menos humana / Quando o Papa e seu rebanho chegar / Não tenha pena. Foi ao corredor, amparou sua esposa, sentou-a no sofá da sala de estar e foi ao quarto, abriu a gaveta do criado-mudo do seu lado da cama, pegou um 38 com o tambor cheio e voltou à varanda. Todo mundo é parecido / Quando sente dor / Mas nu e só ao meio-dia / Só quem está pronto pro amor. Seis tiros ecoaram secos pela casa sob grunhidos febris dos filhotes e lágrimas ensanguentadas no rosto de sua dona. O poeta não morreu / Foi ao inferno e voltou / Conheceu os Jardins do Éden / E nos contou. O filho tirou o fone, esticou o ouvido em direção à porta de seu quarto e franziu o cenho. E ela, a borboleta amarelo arlequim, continuava impassível no alpendre da varanda.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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