Good Riddance.

De tudo que já escrevi neste espaço, hoje me faço ser lido por um motivo afoito. Não digo afoito no sentido de afobado, ansioso, mas no sentido de corajoso, destemido. Por vezes – não poucas – sou seduzido pelo desejo de fazer dos meus textos um lago acadêmico, onde nele despejo todo conhecimento adquirido nesses – até aqui – quase 6 anos de universidade. Mas não, hoje não. Não vou falar também sobre o assunto que originalmente era a pauta desse texto: a criatividade e quebra de paradigmas de um artista tanto genial quanto polêmico. Kanye, você vai ter que esperar um pouquinho – assim como tem nos feito aguardar por seu álbum. Apesar dessa mudança de rota, não posso dizer que este escrito não é musical, pois sim, ele é. Há algo de imprevisível nesse texto, que nasce enquanto estou sentado na cama, numa manhã de sábado. Enquanto deixo as palavras escorrerem pelos dedos e se acumularem na tela, sinto que já passava da hora delas irem embora. “Good riddance!”

A expressão em inglês que pode ser traduzida como “já vai tarde” soa um pouco antipática, mas também denota um alívio. O alívio de deixar ir embora aquilo que já não deveria mais ocupar o espaço que ocupa. O tempo vai seguindo um fluxo contínuo, e enquanto ele nos leva, deixamos coisas pelo caminho. De algumas a gente vai sentir falta por um longo período, mas outras, ah, essas outras já vão tarde. Nesse exercício de reconhecer que nem tudo que temos é o que precisamos carregar para sempre, é que nos fazemos, nos construímos e somos. 

Eu já vivi tempo suficiente pra colecionar uma série enorme de despedidas, o que me traz uma percepção menos caxias e mais delicada sobre quem sou hoje. Mas talvez seja hora de seguir dizendo mais “tchaus” e diminuindo minha bagagem. Ser, pra mim, traz consigo a fé. Eu cresci aprendendo a crer. Crer que as coisas melhoram, que o amor vence, que há um Deus. Mas, há um limite, há um além onde não é necessário ir – e eu não quero ir. 

Não raro, abro o Instagram e perco uns minutos vendo histórias e mais histórias sendo contadas em sequências e mais sequências de pequenos vídeos. E é desse ponto que preciso partir rumo a novos “good riddance”. Apesar de ainda hoje fazer parte de uma comunidade de fé, já não tenho fé no Deus que me exibem nos stories. Eu não acredito no Deus do primeiro milhão, nem no Deus influencer, que por honra ao seu nome anula identidades e dá aos seus “representantes” procuração legal para que ofendam, mintam e ataquem. Não existe mais qualquer razão para seguir adiante com a conformidade dos que se dizem “contraculturais”, mas que se realizam como propagadores dessa mesma cultura que rechaçam. Razão, no sentido de racionalidade, essa sim tem feito falta. “Deus está morto”, se não está, está morrendo. Não é que a divindade Deus esteja morta, muito menos afirmo um ateísmo irresponsável, levando em consideração as afirmações que fiz linhas acima. Ao contrário do que chegou a afirmar o filósofo com nome de grafia complicada, a razão não superou “Deus” – tendo claro entendimento de que a morte de Deus é a morte desse Deus entre aspas, que significava a lógica social e a pauta moral que ordenava o mundo. Nada mais se explicava apenas pela vontade de Deus, mas por um motivo racional, por uma estrutura social complexa que se sofisticava e pelo sistema econômico que se erigia e se firmava no fim do século XIX. A falta de razão sim, essa tem engolido Deus de modo voraz. 

Cada morte comemorada, cada sofisma postado, cada notícia inventada, cada fato negado é um “já vai tarde” direcionado ao divino. Em um mundo de identidades fragmentadas, onde já não é possível fincar os pés nas definições de ser rígidas, a intolerância ganha voz e espaço na boca dos que lutam pela prova da real existência de um Deus que os mesmos matam com suas ações. As piadas sobre o modo de vestir ou dançar do outro, a masculinidade do outro colocada em dúvida por motivos irrelevantes e estúpidos, a bandeira do ser cristão acima de tudo e todos como régua social, a ideia sobre o lugar da mulher e o seu papel de submissão, os discursos cheios de leituras deturpadas – tanto da bíblia quanto de outros autores – que afirmam o que não existe e colocam palavras na boca de Deus. Se a afirmação de Nietzsche não se tornou 100% verdadeira pela razão, a falta da razão tem colaborado pra que isso não demore a ser verdade. 

Vociferam sobre a arte, culpam a política, apontam o dedo, zombam, ridicularizam, aplaudem o ódio e a estupidez, mas tudo que fazem, fazem para “a honra e a glória de Deus”. Não, eu não quero mais isso como realidade. Se me dizem o que é pecado ou não, se buscam me moldar segundo padrões irresponsáveis e difíceis de alcançar, se querem criar uma narrativa sobre o mundo onde a ignorância é a salvação, chega! Os bonecos coloridos mais esquisitos da T.V. estavam certos: é hora de dar tchau. 

Nada, nenhum motivo pode justificar a falta de sensatez e empatia. Já não há mais tempo a se perder com isso. Se nos propõem a guerra, negamos em paz. Não prego um pacifismo alienado, mas uma contraposição à violência verbal, intelectual e física as quais vemos tantos e tantos serem submetidos, quando não somos nós mesmo quem a experimentamos. 

Onde está a música nisso tudo?

Em Outubro de 1997, o Green Day lançava “Nimrod”. O quarto álbum de estúdio da banda trazia entre suas faixas, aquela que se tornaria um dos hinos do rock noventista. No lugar de guitarras, um violão. No lugar de baterias furiosas e baixos distorcidos, naipes de cordas. Ao invés de letras sobre garotas ou drogas, uma bom conselho reflexivo sobre a vida. “Good Riddance” era a penúltima música do disco e falava sobre as mudanças impostas pelo tempo e pela vida e de como lidarmos com isso da melhor maneira possível. Se existe um jeito melhor de lidar com a imprevisibilidade da vida, é aceitando que vamos perder algumas, em outras vezes vamos levantar troféus. Algumas horas seremos mocinhos, mas em outras cabe a nós a vilania. O que se deve guardar disso tudo é o que importa: os amores, as companhias, as lições aprendidas. De resto, tudo o que for embora, “good riddance”.

Abrace, seja, viva, esteja, ame, entregue, ouça, compartilhe, creia. Se não te faz bem, se você não está fazendo bem, “boa viagem”

Há algo de imprevisível nisso tudo, mas no fim, tudo fica bem. Eu espero que você tenha o tempo da sua vida, e o aproveite bem. Sem qualquer peso desnecessário.

“It’s’ something unpredictable, but in the end it’s right. I hope you had the time of your life.”

Good Riddance. 


Diego Neves é músico integrante da banda Legrand, designer gráfico, sociólogo em formação e aspirante a escritor.


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