7. Perspectivas

Paulo andava devagar, pensando no caso do Rapaz assassinado e de como iria organizar o relatório pedido por Aufredo. A casa de sua namorada Penélope era o reduto diário para o almoço e ficava a poucos quarteirões do Departamento de Polícia Civil. Fumava o seu cigarro de filtro amarelo, baforando de tempos em tempos uma fumaça espessa pelo ar, varrida por um vento leve de outono. Era um cara de meia idade, magro, rosto chupado e enrugado, testa alongada salientada por duas entradas que denunciavam uma calvície pertinaz. Suas costas eram levemente arqueadas, o que davam a ele um aspecto envelhecido, como se suportasse mais dores do que o de costume em pessoas de sua idade. Penélope era o seu oposto, quatorze anos mais jovem, faceira, rosto curvilíneo, expressivo, boca larga, olhos amendoados e vivazes, seios salientes, coxas grossas que davam o tom do tamanho da bunda que teriam que sustentar. Adorava tomar banho de sol e demonstrava afeição exagerada pelas marcas deixadas por seus biquínis minúsculos. Trabalhava em casa vendendo roupas pela internet e alimentava constantemente a imaginação dos marmanjos seus seguidores sendo modelo de sua loja virtual. Apesar de adorar elogios, principalmente quando o alvo era seu corpo, nutria pelo namorado Paulo uma paixão beirando a compulsão. E ele se aproveitava disso, instigando nela desejos masoquistas, latente em seu sangue e que a cada dia se tornava cada vez mais emergentes. Quando Paulo chegou, ela estava na cozinha preparando o almoço – cabelo preso por um lápis formando um coque, short jeans, um cropped verde água e descalça. Correu em sua direção e o abraçou fortemente.

– Oi, meu amor. Chegou mais cedo hoje. Que bom! O almoço já está quase pronto.

Ele a abraçou, entortou a cabeça dela segurando com uma das mãos no coque preso pelo lápis e a beijou mordendo seu lábio inferior, enquanto com a outra mão apertava com vontade sua nádega esquerda. A TV estava ligada. E uma jornalista anunciava que por 367 votos a Câmara dos Deputados aprovava a continuidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e encaminhava o resultado para o Senado. Ao ouvir isso, ele se desvencilhou dela e com enorme satisfação disse:

– Deus seja louvado! Até que enfim vão tirar essa anta do poder. Nunca vi uma pessoa fazer tanta merda.

– Ouvi dizer que ela não é tão ruim assim, amor. Só está sendo perseguida por ser mulher e por ter lutado contra a ditadura.

– Ela era uma bandida, isso sim! Pegava em armas e tudo e saía assaltando bancos por aí. Vai ter o que merece… agora, vai lá, vai. Vai fazer esse almoço logo pra mim, que estou morrendo de fome.

– Não! Quem vai me obrigar?

Penélope sabia provocar, gostava de fazer jogos. Lançou sobre Paulo uma careta, cruzou os braços e bateu com o pé no chão, indicando que não sairia de onde estava. Paulo sabia o que ela queria. Aproximou-se dela e, com a mão cheia, desferiu um tapa em seu rosto que a fez rodar e cair ao chão. Ainda deitada, ela se virou para ele assustada, recompondo-se logo em seguida, com as marcas dos dedos do seu homem no rosto, e avançou para cima dele, desferindo beliscões e pontapés pelo seu corpo.

-Oh… calma aí, sua potranca! Quietinha!

– Seu cachorro, safado!

Ele a pegou pelo pescoço, enfiou quase a mão toda na boca dela, fazendo-a ter ânsias de vômito, enquanto Penélope ajoelhava-se à sua frente, cheia de amor para dar. O almoço estava servido na sala, no chão, enquanto as bocas do fogão fumegavam nas trempes o que havia de sobra dentro da jovem Penélope.


Darlan Lula é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia. www.darlanlula.com.br


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