Não Importa Qual Razão, no Brasil não a Temos

Vivemos dias que podemos chamar profundamente cartesianos, em que cada um pensa o que quer e afirma ser a sua opinião soberana, desconsiderando quaisquer tipos de outras opiniões e constatações provenientes das variadas e – por que não dizer? – infinitas subjetividades que nos constituem como sociedade. Mesmo Descartes, filósofo que inaugura o pensamento moderno e dá origem ao termo “cartesiano”, dá voltas no túmulo ao ver que os cartesianos de hoje afirmam-se perante os demais sem recorrer a qualquer tipo de “método”, os fundamentos da prática da razão elencados por Descartes para atingir o conhecimento.

“Penso, logo existo”, é o que postulou o velho pensador, afirmando que, da experiência humana apreendida pela razão, e sistematizada por métodos de reflexão, análise ou experimentação, atinge-se a verdade. Estava parcialmente correto, embora futuros pensadores, dos quais um será tratado neste texto, o tenham lapidado. O que interessa é que, ainda no campo do pensamento social e das ciências humanas, onde mais cabe a reflexão, há de se confiar no pensamento já construído. Isto é, nos estudos, nas reflexões anteriores sobre as quais podemos construir e compartilhar as nossas. Só assim somos um corpo social a caminho do progresso.

Ou, do contrário, não seríamos nada mais que um conjunto de indivíduos tirando, subjetivamente, conclusões sobre tudo e diferentes umas das outras, numa disputa infindável pela verdade que faria ruir a sociedade. Hoje, é exatamente isso que vivemos no Brasil. No país de um presidente injustamente preso e outro barbaramente esfaqueado, o lastro disso tudo é o ódio que efervesceu desde 2013, quando grupos de meia dúzia variados se arvoraram senhores da razão para dizer se vai ter copa, não vai ter copa, se fica Dilma, se sai Dilma, se o problema do Brasil é a corrupção, se é a desigualdade etc. Todos, olhando para a experiência transformada em razão pelo pensamento, como previa Descartes, portanto parcialmente corretos. Na afirmação individual da verdade, como proporia outro pensador, todos terrivelmente equivocados. A ponto de termos um presidente injustamente preso e outro barbaramente esfaqueado, com base na suposta razão defendida por grupos diferentes.

No século XVIII, portanto mais de cem anos após o pensamento cartesiano, que à época vigorava e dava sustentação a regimes autoritários, Immanuel Kant pensou diferente. Ao tipo de reflexão que passa somente pela racionalização da experiência lastreado num método confiável, nomeou “razão pura”, a qual argumentou ser falha porque, a cada vez que um ser humano racionaliza a experiência, o faz na expressão de sua alma, isto é, sua subjetividade. Esta, portanto, não dá conta da verdade.

Kant propôs o que chamou de razão prática, ou seja, aquela que emerge do compartilhamento das reflexões de todos, dividida não para se atingir a verdade absoluta, mas para tangenciá-la, visto a infinidade de experiências e subjetividades produzir sempre retratos multifacetados da realidade. Além disso, esse compartilhamento deveria ser balizado por valores morais, os quais sempre norteados pela libertação do ser humano das forças que lhe exercem opressão. À época, falava do absolutismo. Hoje, poderia ser o mercado, o liberalismo, o patriarcalismo, a saber… Kant não se priva de poder cair nas engrenagens da opressão, por isso a necessidade de estar sempre vigilante e compartilhando conhecimento para construção da razão prática, aquela possível.

Por isso, o Estado e a sociedade moderna constroem-se com a contribuição de Descartes, mas sob os valores lapidados de Kant. Uso da razão para apreensão da realidade, primeiro, seguido pelo compartilhamento para tangenciar a verdade. O oposto do que ocorre no Brasil, onde ficamos pela metade do caminho, e ainda meio mancos. Numa semana em que ataques à democracia foram perpetrados pelo clã Bolsonaro e seus seguidores, que um jornalista foi agredido por defender a honra de sua família, em que a iminência da soltura do ex-presidente Lula gera preocupações quanto à sua segurança, em que 600 dias se completaram sem indícios de quem seja o mandante do assassinato de Marielle Franco e um líder indígena é assassinado no Maranhão, percebemos o quanto deixamos de ser um Estado constitucional moderno conforme seus guardiães filosóficos.

Nem Kant, tampouco Descartes, olhariam com bons olhos para nossa experiência atual como sociedade.


Hélio de Mendonça Rocha é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019


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